Quando se observa a rotina de um serviço de diagnóstico por imagem, o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, médico radiologista, identifica na densidade mamária um dos fatores que mais interferem na sensibilidade da mamografia. A mama é formada por tecido glandular, tecido fibroso e gordura, e a proporção entre esses componentes varia bastante de uma mulher para outra. Quanto maior a presença de tecido fibroglandular, mais clara a imagem aparece no exame, e mais difícil se torna distinguir um nódulo pequeno, que também se apresenta em tons claros. O tema, embora técnico, interfere diretamente na forma como cada paciente deve ser acompanhada.
Como a densidade é classificada no laudo?
A classificação mais utilizada segue o sistema BI-RADS, desenvolvido pelo Colégio Americano de Radiologia, que divide as mamas em quatro categorias. A categoria A corresponde à mama predominantemente gordurosa, a B indica áreas esparsas de tecido fibroglandular, a C descreve a mama heterogeneamente densa e a D, a extremamente densa. As duas últimas são agrupadas sob o rótulo de mamas densas. Por se tratar de uma avaliação visual, a classificação pode variar entre profissionais, o que explica a crescente adoção de softwares que calculam a densidade de forma automatizada e reprodutível.
Conforme pormenoriza Vinicius Rodrigues, a informação sobre densidade não equivale a um diagnóstico e deve ser lida como dado de contexto. Mamas densas são frequentes, sobretudo em mulheres mais jovens, e a tendência é que o tecido se torne mais gorduroso com o avanço da idade e após a menopausa. O achado tem, no entanto, duas implicações relevantes. A primeira é a redução da capacidade da mamografia de revelar lesões, e a segunda é a associação, observada em estudos populacionais, com um aumento moderado do risco de desenvolver câncer de mama.
O efeito de mascaramento na prática
Na mamografia convencional, a mama é comprimida e registrada em duas dimensões, de modo que estruturas localizadas em diferentes profundidades se sobrepõem na mesma imagem. Em mamas densas, a sobreposição de tecido pode encobrir um tumor ainda pequeno, fenômeno que o Dr. Vinicius Rodrigues caracteriza como efeito de mascaramento. Entre as consequências está o chamado câncer de intervalo, diagnosticado entre dois exames de rastreamento cujo resultado anterior foi considerado normal. Não se trata de falha do profissional, e sim de um limite físico da técnica, que precisa ser conhecido por médicos e pacientes.
Os recursos complementares surgem justamente para reduzir a limitação. A tomossíntese, também chamada de mamografia 3D, obtém imagens em finas camadas e diminui a sobreposição de estruturas. A ultrassonografia pode ser associada em casos selecionados, enquanto a ressonância magnética fica reservada, em geral, a mulheres de alto risco. Cada alternativa traz contrapartidas, como maior número de achados que exigem investigação, custo mais elevado e disponibilidade irregular no território brasileiro, fatores que tornam a indicação uma decisão técnica, e não automática.
Informar a paciente virou parte do exame
Desde setembro de 2024, a FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, exige que os laudos de mamografia informem à paciente se ela tem mamas densas e orientem uma conversa com o médico sobre exames adicionais. Na avaliação de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a regra americana antecipa uma tendência de transparência capaz de influenciar outros sistemas de saúde. No Brasil, a categoria de densidade costuma constar no laudo, mas nem sempre é explicada, e muitas mulheres desconhecem o significado da informação recebida. A lacuna afeta especialmente quem recebe o resultado sem passar por uma consulta de retorno.
O passo seguinte é integrar a densidade a uma avaliação de risco mais ampla. Quando combinada com idade, histórico familiar, biópsias anteriores e fatores reprodutivos, a densidade ajuda a definir quem pode se beneficiar de exames complementares e de intervalos diferentes entre as mamografias. A lógica não é gerar alarme, já que a mamografia continua sendo a base do rastreamento, e sim ajustar a vigilância ao perfil biológico de cada mulher. Modelos de rastreamento estratificado por risco já são estudados em diversos países e devem ganhar espaço nas próximas revisões de diretrizes.
